segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Documentário é Arte e poesia

DOCUMENTARIO E ARTE E POESIA E DE QUEBRA, SACODE O MUNDO

Por Silvio Tendler

" Sou ligado ao cinema documental e, mais recentemente, ao jornalismo,
atividades que, se não são propriamente artísticas, decerto existem na
fronteira da criação. Jornalismo não é literatura nem documentário é
cinema de ficção. Nosso capital simbólico é muito menor e nosso horizonte de possibilidades é limitado pelos constrangimentos do mundo concreto.
Não podemos voar tanto, e essa é a primeira razão pela qual, com notáveis
exceções, o que produzimos é efêmero, sem grande chance de permanência."
JOÃO MOREIRA SALLES* in
*Um documentarista se dirige a cientistas*
ensaio, derivado da participação do documentarista João Moreira
Salles em simpósio da Academia Brasileira de Ciências

Recebi esse texto numa lista de cineastas cearenses e fiquei pasmo com o que li.
Escrevi:"Será que João nunca leu "Os Sertões "de Euclides da Cunha, originalmente uma série de reportagens para o Estadão ou não terá assistido Nanouk de Flaherty, A Chuva de Joris Ivens, O Homem e a Câmera de Dziga Vertov, muitos dos filmes de Chris Marker?
Apaixonado pelas reportagens de Robert Drew fechou os olhos ao bom cinema
documentário de poesia e agora pretende transformar ignorância em ciência"

O cineasta Duarte Dias acrescentou:
"Concordo com você.E só para aumentar um pouquinho a lista de exemplos, cito os nomes de Tom
Wolf, Truman Capote e Norman Mailer, sendo este último o responsável direto
pela feitura de um documentário de longa-metragem ganhador do Oscar: "When
We Were Kings", de Leon Gast, que saiu no Brasil com o título de "Quando
Éramos Reis".


Voltei a carga:
"Vamos apimentar a lista de documentários de poesia: Que tal o ciclo da Paraíba, começando com "Aruanda"de Linduarte Noronha. depoiis "A Cabra" na Região Semi Árida de Rucker Vieira. Tomamos um atalho e vamos direto para "A Bolandeira"de Wladimir Carvalho". Que tal uma piatdinha do ciclo do Farkas, Brasil Verdade.para concluir digo que os documentários são feitos com maestria e arte, informação e poesia.
Não acredito que João desconheça esses filmes até porque dá aulas na mesma Universidade que eu (PUC-RJ) e pegaria mal para nós ter um professor de documentários que desconheça a matéria.

O documentario é poesia em estado puro injetada direto na veia, entrando no corpo via o coração até atingir o cérebro. Castro Alves já escreveu em 1871: "O Povo é mais sentimento do que idéia...Moralizar com a lira é o fim mais augusto e sublime da poesia". E se documentário é poesia, cumprindo a profecia de Castro Alves o documentário sacoleja as estruturas e age como antídoto a um mundo estagnado e preconeituoso.
Nunca é demais citar "Corações e Mentes"de Peter Davis ou "Now"de Santiago Alvarez. Vejam "O Engenho de Zé Lins" ou revejam "O Evangelho segundo Teotônio", ambos de Wladimir Carvalho (o maior poeta do cinema brasileiro) e verão que nada ficamos a dever a boa poesia escrita. Wladimir é o João Cabral de Mello Netto do cinema brasileiro.

Sem esquecer os curtas de Sérgio Santeiro e sem complexo de inferiorioridade em relação a outras artes e ciências, navega o cinema documentário, garboso, sacolejando, limpando o mundo das poeiras das mediocridades.

Documentário X Ficcção


Comecemos pelas diferenças de gênero entre ficção e documentário. É bom diferenciar a construção de filmes de um genêro e de outro.


O documentário é um trabalho extremamente autoral e, ao contrário da ficção, que exige quase um exército em campo na hora da filmagem, o documentário exige uma equipe absolutamente minimalista, que não atrapalhe a relação entre autor e personagens.

A ficção, por sua complexidade de produção no trato industrial do filme, exige um roteiro bem amarrado, entendido por todos os envolvidos na produção do filme: diretor, produtor, roteirista, fotógrafo, cenógrafo, figurinista, direção de arte, atores e atrizes, sonidistas, maquiadores, cabelereiros, carpintaria. Isso tudo apenas até a etapa das filmagens e igual número de profissionais é envolvido na fase de pós-produção.

A ficção exige ensaios com os atores, som e imagem para determinar sua relação com a câmera, a iluminação, o deslocamento em cena. Trata-se de um trabalho extremamente complexo cuja precisão do roteiro é fundamental.

O que é qualidade em ficção é inexequível no documentário. O documentário, assume contornos investigativos que tomam forma na medida em que o filme vai sendo realizado. O documentário parte de um bom argumento, algumas questões e intuições e, a cada passo, o filme vai se moldando.

É bom saber que, na ficção, ao criar o filme, tudo está sob controle na tela do computador do roteirista que imagina e cria cada cena a seu gosto e prazer. No documentário, tudo está por acontecer na hora da filmagem e a imprevisibilidade é parceira da criação.

Mal comparando, pode-se dizer que a ficção representa uma viagem a bordo de um navio transatlântico com toda sua enorme tripulação e o documentário representa a viagem num veleiro e a solidão do seu navegador, solitário, mesmo como um Amyr Klink ou com uma pequena tripulação de bordo.

Essa é a razão pela qual, em condições normais, o custo de um documentário é, algumas vezes, menor.